Ozempic e Saúde Bucal: impactos, riscos e cuidados necessários
O Ozempic (semaglutida) tornou-se um dos medicamentos mais comentados dos últimos anos. Desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2, ganhou popularidade também pelo uso off label em protocolos de emagrecimento. Seu mecanismo de ação, como agonista do receptor de GLP-1, contribui para o controle glicêmico e para a redução do apetite, o que o transformou em um recurso valioso para muitas pessoas. Mas se o olhar médico tem se concentrado nos benefícios metabólicos, a odontologia não pode ignorar seus reflexos na saúde bucal.
De início, é importante reconhecer os possíveis benefícios indiretos. O controle glicêmico obtido com a semaglutida ajuda a reduzir a inflamação sistêmica, algo que impacta diretamente condições como a periodontite, já que pacientes diabéticos apresentam maior risco de inflamação gengival e dificuldade de cicatrização. Nesse sentido, manter níveis adequados de glicose circulante significa também favorecer um ambiente oral mais equilibrado.
Por outro lado, o medicamento não está isento de efeitos adversos. Entre os mais comuns relatados em estudos clínicos e revisões publicadas no New England Journal of Medicine e no JAMA, destacam-se náuseas, vômitos e refluxo gastroesofágico. Esses sintomas têm repercussões diretas na cavidade oral. O refluxo ácido, por exemplo, aumenta o risco de erosão dentária, desgaste do esmalte e hipersensibilidade. Já episódios frequentes de vômito expõem os dentes ao ácido gástrico, comprometendo a integridade das estruturas orais e elevando a suscetibilidade a cáries.
Porém, os efeitos adversos associados ao Ozempic merecem atenção especial dentro da clínica odontológica. Alguns pacientes relatam com frequência xerostomia (boca seca), consequência que compromete a função protetora da saliva. Sem esse fluxo adequado, a boca perde parte de sua capacidade de neutralizar ácidos, controlar bactérias e manter o pH estável, aumentando o risco de cáries, inflamações gengivais e halitose.
Outro sintoma observado é a alteração de paladar, descrita como sensação de gosto metálico ou amargo. Embora não seja um efeito grave, pode prejudicar a experiência alimentar, interferir na aceitação de dietas e comprometer a percepção sensorial da saúde bucal. Associada à boca seca, essa alteração pode agravar o mau hálito, que surge tanto pela redução da produção salivar quanto pelo acúmulo de compostos sulfurados voláteis na cavidade oral.
Há ainda o risco da erosão dentária, sobretudo em pacientes que apresentam episódios de refluxo ácido ou vômitos, efeitos colaterais relativamente comuns do uso da semaglutida. O contato frequente dos dentes com o ácido gástrico leva ao desgaste progressivo do esmalte, gerando sensibilidade, perda da forma anatômica dos dentes e maior vulnerabilidade a cáries. Em casos avançados, a erosão pode comprometer até tratamentos restauradores e protéticos.
Diante desse cenário, o papel do cirurgião-dentista é crucial. Cabe ao profissional monitorar de forma preventiva esses pacientes, investigando sintomas sutis e orientando sobre estratégias de cuidado, como hidratação adequada, uso de saliva artificial em casos de xerostomia severa, bochechos neutralizantes para reduzir os efeitos da acidez e acompanhamento periódico da integridade do esmalte.
É igualmente essencial promover um diálogo interdisciplinar entre dentistas, médicos e nutricionistas, para que os possíveis efeitos adversos não sejam negligenciados em função dos benefícios sistêmicos do medicamento. A odontologia moderna exige essa integração: compreender como novas terapias influenciam a boca e como a boca, por sua vez, reflete a saúde integral do paciente.
Em resumo, o Ozempic pode ser aliado da saúde bucal ao contribuir para o controle do diabetes, mas seu uso também traz desafios importantes, como boca seca, gosto metálico ou amargo, mau hálito e erosão dentária. Reconhecer esses sinais precocemente e orientar os pacientes de forma técnica e humanizada é fundamental para transformar riscos em oportunidades de cuidado, reafirmando que a odontologia é parte inseparável da jornada de saúde integral.
Entrar em contato Agendar consulta